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Por que usar óculos durante as manhãs
Por Camila Chaves
Acordei às 6h, tomei banho e café e segui sem óculos para o trabalho porque sempre acreditei que são mais simpáticas as pessoas que não usam óculos durante as primeiras horas do dia, ainda que elas sejam míopes, que não cumprimentem as pessoas por não tê-las reconhecido, que percam alguns ônibus por não terem conseguido ler letreiros ou outras coisas parecidas.
Em lá chegando, abri a porta de minha sala e, ainda sem óculos, pus em prática tudo aquilo que um tímido que se preza ensaia diariamente durante seu percurso para que tenha a completa certeza de que as coisas acontecerão de forma natural: um sorriso largo, porém discreto; um bom dia animado; uma caminhada de uma ponta à outra até a geladeira; um copo com água.
Eu estava mandando muito bem, até que uma colega de trabalho me chamou até a porta e comentou com voz de discrição: - Ei. Fomos roubados na noite passada. Serraram a grade, quebraram o vidro da janela, entraram na sala e levaram todos os nossos monitores de LCD. Abri a porta novamente e, em um piscar de olhos, a cena estava exatamente ali, completamente montada.
Os cacos de vidro no chão, as grades retorcidas da janela, as pegadas empoeiradas sobre o estofado da cadeira, aquele vazio de monitores ausentes sobre a bancada, minhas digitais na geladeira, aquela piada que eu e uma amiga fizemos quando nossas bolsas tiveram atraso no depósito, a forma como meus olhos passeavam pelo livro que eu fingia ler enquanto a polícia federal vistoriava o local, tudo levava a crer que eu era a maior suspeita.
Mas era claro que eu não era.
Depois daquele, na Universidade Federal do Maranhão aconteceram tantos outros roubos e mesmo assaltos que muitos de nós talvez só teremos conhecimento quando a administração superior ordenar aos trabalhadores de sua assessoria que o divulguem para então justificar seus planos de segurança armada, catracas eletrônicas e fechamento dos portões que dão acesso às comunidades vizinhas, como o Sá Viana e a Vila Embratel.
Na Ufma, não se fala em concurso público para substituição de uma segurança feita de forma terceirizada que serve para intimidar estudantes em reivindicação e trabalhadores que fazem o trajeto pelo campus porque não podem pagar o valor cobrado pelo transporte público, mas que em contrapartida não consegue arcar nem mesmo com o seu principal, porém absurdo objetivo, o de proteger o patrimônio físico da Universidade.
Eu não queria, mas já há algum tempo voltei a usar óculos às primeiras horas da manhã. Fez-se necessário.
Publicado em 8 de agosto de 2010.
Disponível em: http://chavescamila.blogspot.com/
Assista também ao divertido protesto dos estudantes do Curso de Letras- Jonas Daniel e Sandra Mara.
